“Bom dia! São 8h da manhã em Portugal Continental e na Madeira, menos 1h nos Açores!”. Enquanto ouve este anúncio no carro a caminho do trabalho, por exemplo, começa um novo dia, que na realidade nunca acabou, no Serviço de Internamento Veterinário do Hospital AllVetCare.
Turno da noite e da manhã reúnem-se no sítio onde as decisões são tomadas – o “Aquário”. Em frente aos computadores debatem-se as particularidades de cada caso clínico, identificando os pacientes, a sua resenha, o motivo que os levou a necessitar de cuidados contínuos e inevitavelmente a sua evolução, ajustando desta forma plano diagnóstico e terapêutico.
– Hoje começamos pelo Mufasa: um gato macho castrado com 3 anos de idade, da raça Persa, que foi hospitalizado há 2 dias com queixas de dificuldade em urinar, foi diagnosticado com obstrução uretral complicada por insuficiência renal detectada nas análises de sangue. Foi estabilizado, colocado a fluidoterapia, sedado e algaliado. Esta noite começou a petiscar um pouco de dieta húmida (mas foi preciso andar a “namorá-lo”!), apresenta boas produções urinárias e ao exame físico está confortável e hidratado. O plano é repetir parâmetros renais hoje, uma vez que ontem o ionograma já estava normalizado.
– A seguir está a Sarabi que ficou hospitalizada por apresentar uma infeção uterina, já recuperou da cirurgia e felizmente vai ter alta. Contrariamente, o Scar que caiu do 4º andar e colocou ontem um dreno torácico (um tubo com vários orifícios colocado no tórax que permite retirar líquido – como sangue ou pus – e ar desta cavidade), ficará ainda ao nosso cuidado, pois ainda não se encontra fora de perigo. Tem programadas drenagens a cada 4 horas, porque ainda está acumular bastante ar.
– O Marley é um Labrador de 6 meses entrou hoje durante a noite, porque ingeriu uma carica, vai fazer endoscopia para remoção da mesma.
– A Lassie é uma caniche de 12 anos com paraplegia súbita dos membros pélvicos (deixou de andar das patas de trás), está em jejum porque vai fazer TAC de coluna para planeamento cirúrgico. Durante a noite manteve-se confortável com a medicação, não tendo sido preciso fazer nenhum resgate analgésico.
1.Passagem de casos clínicos entre turnos no “Aquário”
E a lista continua até toda a informação ser passada e estar clara de um turno para o outro. Cada turno tem uma equipa constituída não só por Médicos Veterinários Internistas, mas também por elementos essenciais da nossa equipa, as Enfermeiras e Auxiliares que ficarão encarregues, durante o seu turno, de cuidar individualmente dos vossos meninos. As suas tarefas incluem administrar medicações, realizar determinada análise ou procedimento programado e ainda garantir o conforto e higiene dos pacientes. São estes elementos que melhor conhecem os aspectos peculiares da personalidade de cada um dos nossos doentes e que detectam as mais precoces alterações e transmitem aos Médicos.
Ir passear à rua com os pacientes caninos, mantê-los limpos e cheirosos (o que às vezes isso implica tomar banho!), garantir que as camas são fofinhas o suficiente para os mais seniores ou pacientes com menor mobilidade (por exemplo aqueles jovens atletas que lesionaram o joelho a saltar um muro e vão precisar de ser submetidos a cirurgia), faz parte das suas funções diárias.
2 e 3. O conforto e a higiene são essenciais durante a recuperação
E como se costuma dizer que “várias cabeças pensam melhor do que uma”, os casos clínicos mais complexos e desafiantes, passam também pelo escrutínio da restante equipa de Médicos Veterinários do AllVetCare. Aproveitamos assim o facto de dispormos de diferentes serviços de especialidade da Medicina Veterinária, como Ortopedia, Neurologia, Cirurgia Geral, Dermatologia, Imagiologia, Oncologia e outras “gias” para garantir os mais recentes e melhores cuidados aos nossos pacientes.
– Colegas, o internamento precisa de discutir convosco o caso do Kuzko: é um rafeirinho muito giro, tem 8 anos, macho inteiro, que veio durante a noite por convulsão, mas tem protusão do globo ocular e muita dor na abertura da cavidade oral, além de um sopro cardíaco que ainda não avaliado, bem como alopécia bilateral dos flancos e poliúria e polidipsia há vários meses. Hoje vamos fazer análises gerais e ecocardiograma, porque planeamos propor Ressonância Magnética craniana, o que é que acham?
E assim se abre um debate: a pele para a Dermatologia, a polidipsia/poliúria para Medicina Interna, a possibilidade de massa ou abcesso retrobulbar para a Imagiologia e/ou para a Cirurgia, tal como a convulsão para a Neurologia!
O tempo urge! Retoma-se o trabalho da manhã com a avaliação individual de todos os pacientes, priorizando o exame dos casos mais graves ou instáveis. Procedemos a pesagens diárias, verificação da patência de cateteres endovenosos, monitorização de parâmetros vitais através de exames clínicos gerais, aos quais se acrescentam especificidades particulares de acordo com as diferentes patologias.
O Max que está a coxear vai necessitar de um exame ortopédico completo que inclui a avaliação da marcha, dos reflexos e mobilidade articular, etc. Por outro lado, a Princesa que entrou por ter ficado com a cabeça de lado e nistagmus necessita de um exame neurológico que ajude a descobrir se a lesão neurológica é central ou periférica.
Por esta altura do dia, grande parte dos pacientes já fez análises sanguíneas e os exames de imagem que não necessitam de sedação, nomeadamente radiografias e ecografias abdominais. Já foram avaliadas, limpas e desinfectadas feridas cutâneas e renovados pensos simples ou ortopédicos.
4 e 5. Monitorização de doentes: ecografia raṕida de urgências (à esquerda) e eletrocardiografia (à direita)
Final da manhã, momento de cruzar informações clínicas relevantes relativas à evolução do paciente, ao exame clínico e aos resultados de exames complementares de diagnóstico para que possamos entrar em contacto com as famílias que tão ansiosamente aguardam novidades dos seus meninos. Talvez já nos tenha até tentado contactar, entendemos as suas preocupações e queremos retomar a chamada telefónica o mais rapidamente possível, contudo acaba de entrar uma urgência médica que não pode carecer dos nossos cuidados… Não hesitamos, muito embora o tempo tenha parado à nossa volta…Todos os elementos do nosso Hospital iniciam o protocolo de emergência médica… Hoje parece ser um dia vitorioso, conseguimos salvar mais uma vida.
Hora de voltarmos à tarefa pela qual aguarda avidamente… o nosso contacto telefónico !
“Bom dia, fala-lhe a Médica Veterinária Internista, estou a ligar para lhe dar novidades do seu Romeu!”. Temos a consciência que é em nós que deposita a sua confiança no que concerne a saúde e bem estar do seu animal, por isso é nossa responsabilidade informar-lhe das relevantes informações clínicas até ao momento, dos resultados analíticos, mas também sobre a necessidade de eventualmente ser imprescindível avançar com mais exames. Por isso, muitas das vezes são propostos novos despistes para chegarmos a um diagnóstico final. Aproveitamos também este contacto para agendar as visitas que vão ocorrer no período da tarde. O agendamento é crucial para que as diferentes famílias possam ter a privacidade com o seu animal e o tempo presencial com a Médica Veterinária, mas acima de tudo para que se possa manter um ambiente calmo e menos stressante para os restantes doentes.
6. Contacto diário com as famílias dos pacientes (aqui com o auxílio do Paco)
E se porventura chegou até nós referenciado pelo seu Médico Veterinário assistente, em consequência da necessidade do seu animal requerer cuidados intensivos, saiba que também ele é contactado diariamente para atualizações clínicas. A propósito, a Lola – gata com 2 anos de idade – foi encaminhada por anemia grave com indicação de transfusão de sangue (do grupo sanguíneo dela, tal como nos humanos!), sendo imprescindível a monitorização do estado cardiovascular (pressão arterial, frequência cardíaca e respiratória) durante este procedimento.
7 e 8. Monitorização de transfusão de sangue, que inclui medição da pressão arterial
E entre contactos telefónicos, somos solicitados pela equipa cirúrgica:
– A Mel está agora a sair do bloco operatório tendo sido submetida a TTA (intervenção ao joelho), ficará hospitalizada até amanhã para controlo de dor.
– Ok, está com infusão contínua de fentanil? Certo, então vou programar monitorização da dor a cada 4 horas para verificarmos se é suficiente ou se teremos de acrescentar medicação analgésica para que permaneça confortável.
Eis que chega a hora do almoço! A alimentação é parte importante para a recuperação de qualquer doente. Nas situações em que a alimentação espontânea não acontece, tentamos estimulá-la oferecendo um vasto menu de opções adequadas à patologia e de acordo com as recomendações médicas! O requinte dos gatos é particularmente difícil de agradar… Quando não há ingestão desta forma, pode ser necessário assistir alimentação. Em certos casos é crucial proceder à colocação de sondas de alimentação, de forma a garantir as necessidades nutricionais dos nossos doentes, nomeadamente nos gatos com Lipidose Hepática ou nos cachorros com Parvovirose.
9, 10, 11. Aporte de nutrientes através de alimentação espontânea, assistida ou por sonda
O dia já vai longo, mas chegam os reforços, que é como quem diz: os colegas que nos irão substituir no turno da tarde! Tal como pela manhã todas as informações clínicas, mas também as não clínicas, são transmitidas e discutidas. Há altas para preparar e visitas a chegar, últimos exames pendentes e autorizados nos contactos da manhã são realizados para podermos dar o máximo de respostas às dúvidas ou questões que terá para nos colocar.
No meio de tamanha azáfama, o Médico Veterinário destacado para as consultas interpela:
– Posso internar um gato que está a vomitar incessantemente? Ainda aguardo os resultados das análises. É o Piropo e andou a brincar com um novelo de lã… Está muito desidratado, hipotérmico e com dor abdominal.
– Com certeza! Assim que tiveres os resultados das análises diz-nos!
Minutos depois:
– Está mesmo bastante desidratado e com hipocalémia grave! Já requisitei ecografia abdominal de urgência à equipa de imagiologia, desconfio que possa haver obstrução intestinal…
Bem dito, bem feito: ecografia compatível com corpo estranho linear! Tem indicação cirúrgica, mas previamente é conveniente melhorar a hidratação, a temperatura e os níveis de potássio, com o intuito de diminuir o risco anestésico, pelo que ficará imediatamente a soro com acompanhamento dos parâmetros vitais, pela equipa de internamento.
12. Fluidoterapia como garantia de rehidratação e reposição de elementos fundamentais para organismo
Entretanto começam a chegar as primeiras visitas! A presença dos familiares é considerada de extrema importância para o bem-estar dos pacientes, dado que na grande maioria das vezes (e salvo excepções de contra-indicação médica) promove a diminuição da ansiedade associada à hospitalização. Por exemplo, o Scar comeu com os donos ! – óptimo, de facto tem a dor controlada, não estaria a comer devido à sua timidez para connosco. A dona também nos confidenciou que prefere peixe a carne e que tem por hábito ingerir maiores quantidades de alimento durante a madrugada.
Ademais, as visitas são também essenciais para garantir a tranquilidade e segurança dos tutores, permitindo que os mesmos conheçam pessoalmente as condições e cuidados oferecidos aos seus animais e que acompanhem de “perto” o progresso do tratamento, ao mesmo tempo que vão recebendo orientações sobre os cuidados necessários durante a recuperação, assegurando-se que o(a) seu menino (a) se encontra a receber o melhor tratamento possível – o que inclui uma boa dose de mimo e carinho!
13 e 14. TLC (do inglês: Tender, Loving, Care) que significa Ternura, Amor, Cuidado é fundamental para garantir o bem-estar animal
O Max está a terminar o seu passeio com o tutor pelo que deverá regressar à Ala dos Canídeos, enquanto a cuidadora do Mufasa é encaminhada à Ala dos felídeos. Curiosamente hoje não temos nenhum paciente na Ala das doenças infeto-contagiosas, ainda assim numa das incubadoras temos o Tambor, um coelho-anão que está a recuperar da anestesia para cuidar dos dentes, ao passo que a ninhada que nasceu de cesariana ocupa a outra incubadora enquanto aguarda que a mãe recupere.
A alta do Marley está atrasada 20 minutos, o dono ficou retido no trânsito, por isso aproveitamos para o entreter com brincadeiras e carinho… como cachorro que é está cheio de energia e parece que nada o impede de fazer as suas traquinices!
E lá a Sarabi, a abanar a cauda cheia de entusiasmo ao passar pelo corredor em direção à recepção pois já se apercebeu que hoje não vai apenas passar a noite a casa… Hoje, sim hoje, tem efetivamente alta definitiva !
Parece que o dia das consultas terminou, o dia da cirurgia terminou, todavia uma coisa é certa…O trabalho no internamento continua: o Piropo está a acordar da anestesia depois de sido removido um fio de quase 1 metro do intestino delgado, o Scar voltou a aumentar a frequência respiratória, o Mufasa tem que retirar a algália, a Mel tem que ir à rua e são necessárias duas pessoas em virtude do joelho, o Kuzko teve novamente uma convulsão e está a caminho do AllVetCare um paciente, referenciado por outro Centro de Atendimento Médico-Veterinário, com forte suspeita de torção gástrica! É mandatório estabelecer prioridades: cessar a convulsão do Kuzko, drenar o Scar, monitorizar o Piropo, preparar o material para receber a torção gástrica, levar Mel à rua, retirar a algália ao Mufasa. De novo ordem restabelecida, nada faltou aos nossos pacientes e o algo nos diz que o “caos organizado” inerente à “alma” do internamento manter-se-á!
Ouviu a campainha? Chegou a equipa que vai garantir o expediente noturno! Prosseguimos novamente com a tão já sua conhecida “passagem dos casos”, assegurando assim que os colegas dispõem de todos os dados de todos os doentes, até ao momento. Serão eles, de agora em diante, que ficarão encarregues de proceder com a repetição dos exames clínicos, alimentações, medicações, etc.
Por isto se diz que “o Internamento é o coração de um Hospital”. E o nosso não é excepção! Não interrompendo funções durante as 24h que constituem o dia (seja ele útil, fim semana ou feriado), proporcionamos deste modo acompanhamento Médico Veterinário permanente e cuidados intensivos aos nossos pacientes.
Entre as consultas de urgência e os cuidados aos nossos doentes, a madrugada passou a correr…
E sabe que mais?
“Bom dia! São 8h da manhã em Portugal Continental e na Madeira, menos 1h nos Açores!”. Enquanto ouve este anúncio no carro a caminho do trabalho, por exemplo, começa um novo dia, que na realidade nunca acabou, no Serviço de Internamento do Hospital AllVetCare.
Nota de autoras: todos os nomes são fictícios, embora baseados em casos reais.
Ana Mota e Daniela Araújo
Médicas Veterinárias
