Incisivos desgastados: nem sempre o óbvio
Incisivos desgastados ou fraturados? O aspeto pode enganar.
À observação macroscópica, dois incisivos podem parecer muito semelhantes: perda extensa de estrutura coronária e uma área central mais escura. Mas biologicamente podem representar situações muito diferentes.
Num dente com desgaste crónico, a perda progressiva de esmalte e dentina pode permitir uma resposta defensiva do complexo dentino-pulpar, com deposição de dentina terciária. Esta pode apresentar-se como uma área central mais escura ou pigmentada, sem que exista necessariamente exposição pulpar.
Já numa fratura complicada da coroa, existe exposição direta da polpa. Com o tempo, o tecido pulpar exposto pode sofrer inflamação irreversível e necrose, adquirindo um aspeto escuro que, macroscopicamente, pode ser confundido com dentina terciária.
⚠️ E aqui está o problema: olhar apenas para a cor ou para o aspeto do centro da lesão pode não ser suficiente para determinar se estamos perante dentina terciária ou uma câmara pulpar exposta com tecido necrótico.
A diferenciação deve integrar história clínica, padrão e velocidade de perda dentária, exploração cuidadosa da superfície, sondagem e radiografia intraoral.
Na radiografia, a avaliação da largura do canal pulpar, integridade periapical e presença de alterações endodônticas é fundamental para determinar a vitalidade provável do dente e orientar a decisão terapêutica.
Parecem iguais. Podem não ser.
Na odontologia veterinária, aquilo que vemos na superfície é apenas uma parte do diagnóstico.