Introdução
A doença periodontal em animais de companhia é a doença da cavidade oral mais comum, e é cada vez mais diagnosticada na prática clínica.
A acumulação de placa bacteriana na superfície dos dentes é o factor principal para o desenvolvimento deste problema.
De entre os factores que predispõem o aparecimento da doença periodontal em animais de companhias, podem estar a raça, a idade, a mastigação e a saúde do animal.
É comum, que em cães de raça pequena e gatos exista logo por volta dos 2 anos algum grau de doença periodontal. Sabe-se que as raças com maior predisposição são os Pinscher, Yorkshire terrier ou Bichon maltês.
Apesar do seu grau de prevalência, a doença periodontal pode passar despercebida para a maioria dos tutores, os quais não estão ainda suficientemente informados para reconhecer os seus sinais ou para prevenir que apareça. Geralmente, o principal sinal clínico detectado pelo tutor é a halitose (mau cheiro proveniente da boca do animal).
Desta forma, se a doença periodontal em animais de companhianão for detectada e tratada, irá evoluir, podendo causar inflamação e infecção de toda a boca do animal, eventual perda do dente ou dentes afectados e num estado terminal poderá até existir risco de fractura da maxila ou mandíbula. Poderá também causar doenças sistémicas, afectando órgãos como o coração, o fígado ou os rins.
Há vários métodos para prevenir a evolução desta doença, sendo que a escovagem diária é o método mais eficaz para controlar a placa bacteriana e manter a saúde oral do seu animal.

Etiologia
A doença periodontal em animais de companhia é uma doença inflamatória, causada pelas bactérias existentes na placa dentária, que se vai desenvolvendo nos tecidos de suporte do dente. Começa por ser apenas uma ligeira inflamação da gengiva (gengivite), a qual, se não for tratada, irá evoluir para o início da destruição das estruturas que envolvem e fixam o dente (gengiva, ligamento periodontal, osso alveolar e cimento), causando uma periodontite. Esta inflamação constante e progressiva, vai promovendo uma destruição cada vez maior dos tecidos que suportam o dente, podendo levar num estado avançado da doença à mobilidade dentária.
A placa dentária, caracteriza-se por ser um material amarelado, viscoso, que se forma à superfície do esmalte do dente, podendo também ser chamado de biofilme. Este biofilme, é constituído quase essencialmente por bactérias orais, contidas numa matriz de glicoproteínas salivares e polissacáridos extra-celulares. O biofilme tem a capacidade de se ligar à superfície de dentes limpos, num espaço de 24-48h, caso não seja removido. Inicialmente, este biofilme é constituído por bactérias não patogénicas, a que damos o nome de Gram-positivas e aeróbias, mas que rapidamente evoluem para uma população de bactérias já patogénicas, Gram-negativas e anaeróbias. São as toxinas e os produtos resultantes do metabolismo destas bactérias patogénicas, que irão causar a inflamação das gengivas e dos restantes tecidos periodontais.
Apesar disto, a microflora oral pode regressar em poucos dias à sua composição normal de bactérias não patogénicas, caso seja instituído um regime eficaz de controlo da placa dentária, sendo assim possível o tratamento da gengivite.
O cálculo dentário (muitas vezes chamado de tártaro) não é mais que a mineralização da placa dentária, que assim ficou devido à precipitação de sais de cálcio e outros minerais existentes na saliva. O cálculo poderá ter um efeito irritante para os tecidos, mas é por si só pouco patogénico.
Gengivite
A gengivite é a primeira manifestação clínica da doença periodontal. É causada pela acumulação de placa bacteriana junto à margem gengival e nos sulcos dentários.
Podemos considerar que os tecidos gengivais saudáveis são de uma cor rosa-claro, possuem um bordo fino, liso e regular. Não devem ser observados vestígios de placa dentária ou cálculo.
Quando estamos perante uma gengivite, existe uma alteração da cor da gengiva, observando-se uma linha avermelhada ao longo da margem gengival, o que corresponde a uma inflamação superficial da gengiva. Esta é reversível se for removida a placa bacteriana, não havendo perda do ligamento periodontal.
Periodontite
Quando a gengivite não é tratada, a inflamação dos tecidos vai aumentando e evolui para periodontite, onde vai haver uma perda de fixação. Esta perda de fixação do dente, começa essencialmente de duas maneiras:
1. Numa delas, pode haver uma recessão da gengiva, mas o sulco gengival mantém-se inalterado. Isto faz com que haja exposição das raízes do dente afectado. Esta lesão é facilmente identificável durante o exame físico do animal em consulta.
2. Na outra, a gengiva mantém-se com a mesma altura, mas a sua área de fixação desloca-se no sentido apical e cria uma bolsa periodontal. Neste caso, só é possível fazer o diagnóstico sob anestesia geral, através do uso de uma sonda periodontal.
Estágios da Doença Periodontal em Animais de Companhia
Segundo a American Veterinary Dental College, pode classificar-se a doença periodontal em animais de companhia em quatro estágios consoante o grau de gravidade. Num paciente, podem existir dentes em diferentes estágios da doença.
No estágio 1, apenas existe gengivite, mas sem perda de fixação. A altura e o aspecto da margem alveolar são normais.
Neste estágio, o biofilme acumula-se e a placa bacteriana pode começar a sofrer mineralização. A gengivite pode evoluir da região sub-gengival para a supra-gengival. Nesta fase, já é possível observar a linha avermelhada ao longo do bordo da gengiva junto ao dente, podendo por vezes ocorrer sangramento.
No estágio 2, observa-se uma periodontite leve, havendo menos de 25% de perda de fixação. Existem sinais radiológicos precoces de periodontite.
Surge um maior grau de inflamação da gengiva e há uma acumulação moderada de placa bacteriana. Poderá também ser observado cálculo dentário. Pode ser observado retração ou hiperplasia gengival pelo aumento do sulco gengival.
No estágio 3, existe uma periodontite moderada, com perda de fixação entre 25 a 50%.
Deve tentar evitar-se a todo o custo que a doença chegue a esta fase, pois os danos podem já ser irreversíveis para a manutenção do dente. A gengivite é já bastante severa, há uma maior retração gengival e uma perda óssea acentuada, podendo existir um grau de mobilidade dentária grande. A maioria das vezes há presença de cálculo dentário e pode ser necessário a realização de algumas extrações dentárias.
No estágio 4, temos já uma periodontite avançada, com mais de 50% de perda de fixação.
Nesta fase, temos uma doença periodontal muito grave, ocorrendo inflamação severa da gengiva, recessão gengival acentuada, bolsas periodontais profundas, perda óssea muito acentuada, mobilidade dentária e possivelmente sangramento abundante.
Estas alterações são já irreversíveis, sendo necessário tratamento médico adequado, incluindo extração dentária.

Algumas consequências locais da Doença Periodontal em Animais :
– Fístula oro-nasal: Aparece geralmente em cães idosos de porte pequeno.
Resulta da evolução da doença periodontal nos dentes maxilares, principalmente no dente canino. Surge assim uma comunicação entre a cavidade oral e nasal, manifestando-se com sinais clínicos como corrimento nasal crónico, espirros e halitose. A sua resolução requer a extração do dente afectado e o encerramento do defeito com um flap gengival.
– “Fractura patológica”: Surge com maior frequência na mandibula, em consequência da perda óssea crónica que vai enfraquecendo o osso. É também maioritariamente observada, em cães de pequeno porte, principalmente no primeiro molar mandibular, que é um dente grande proporcionalmente ao tamanho do osso mandibular. A sua resolução tem um prognóstico reservado em virtude da falta de osso envolvente.
– Osteomielite crónica: A doença periodontal é a causa principal desta infecção óssea, que requer antibioterapia forte ou em casos extremos desbridamento cirúrgico agressivo do osso afectado.
– Aumento na incidência de cancro oral em animais com doença periodontal crónica. Pensa-se que seja devido ao estado inflamatório crónico existente na periodontite muito grave.
Consequências sistémicas da doença periodontal
Os estudos que têm vindo a ser realizados mostram que as bactérias existentes na doença periodontal em animais de companhia, assim como os mediadores da inflamação libertados ao longo da evolução da doença, penetram na corrente sanguínea e podem ter acesso a todo o organismo.
No fígado, as bactérias podem causar uma inflamação grave do parênquima hepático e fibrose portal. Nos rins, estão descritos casos de pielonefrite e nefrite intersticial devido à bacteriemia ocasionada pela doença periodontal. Pode também existir deposição de complexos imunes nos glomérulos renais que causam glomerulonefrites.
As bactérias orais, podem aderir às válvulas cardíacas previamente lesadas e causar endocardites bacterianas.
Existem estudos que já demonstram uma forte relação entre a doença periodontal e o aumento na resistência à insulina, o que pode inclusive, levar ao aparecimento de diabetes mellitus.
Apesar de ainda pouco documentado, já surgiram estudos que relacionam a doença periodontal grave, com o aumento da incidência da doença pulmonar crónica obstrutiva ou pneumonia.
Sinais Clínicos
A maioria dos cães com mais de 4 anos, apresentam algum grau de doença periodontal e na maior parte dos casos os tutores não identificam a sua existência.
Ainda assim, um dos sinais mais detectados pelos tutores é a halitose. Muitas vezes acabam também por observar a presença de uma linha avermelhada nas gengivas, a presença de cálculo dentário ou mesmo a existência de mobilidade num ou mais dentes. Em casos avançados, podem notar sangramento vindo da cavidade oral.
Podem também notar uma mudança nos hábitos de alimentação do seu animal, deixando repentinamente de conseguir comer ração seca ou notarem algum desconforto durante a mastigação.
Diagnóstico e Tratamento da Doença Periodontal em Animais de Companhia
O objectivo do tratamento da doença periodontal, será sempre a eliminação da principal causa do seu aparecimento, mais precisamente a placa bacteriana.
Para identificarmos o melhor tratamento a efectuar, é indispensável proceder a um diagnóstico completo da doença periodontal em animais de companhia. Para isso, é necessário um exame clínico com o animal consciente e um exame mais pormenorizado e com avaliação radiográfica, sob anestesia geral. Estes procedimentos irão permitir determinar os graus da doença periodontal e os factores predisponentes que podem ter levado ao seu aparecimento.
Durante a consulta pré-cirúrgica o médico veterinário deverá realizar um exame físico completo, assim como uma avaliação oral. O exame físico, juntamente com a realização de análises pré-cirúrgicas permitem identificar problemas pré-existentes que possam comprometer a realização da anestesia geral. Já a avaliação oral permite que sejam identificadas situações como halitose, presença de gengivite, de placa bacteriana, cálculo, ausência de dentes (ou coroa), a existência de zonas de recessão gengival, a existência de bolsas periodontais, exposição de raízes dentárias, dentes com mobilidade entre outras.
Esta primeira observação permite informar o tutor acerca dos problemas identificados, a gravidade da doença periodontal e que tipo de intervenção irá ser realizada.
Porém, o tutor deverá ser alertado que para um diagnóstico completo ser feito, será sempre necessário planear uma avaliação sob anestesia geral.
Desta forma, durante a avaliação sob anestesia geral, será feito um exame periodontal completo com uma sonda periodontal. Esta sonda é introduzida no sulco gengival, paralelamente ao dente, até à sua profundidade máxima. A profundidade normal do sulco em cães é de 1 a 2 mm, podendo atingir até 4 mm em raças de grande porte e em gatos deverá ser entre 0 e 0,5 mm. Se os valores forem superiores, estaremos então na presença de periodontite e esse local tem indicação para tratamento.
Segue-se a avaliação radiográfica da boca, preferencialmente através do uso das técnicas intra-orais, que eliminam a sobreposição de outras estruturas e permitem uma imagem dentária de melhor qualidade. Os sinais radiográficos de periodontite são essencialmente, o aumento do espaço periodontal, a descontinuidade da lâmina dura e a perda de osso alveolar.
Usualmente, o primeiro passo é a realização de uma destartarização supra-gengival, onde é removido o cálculo dentário. Esta destartarização pode ser feita manual ou mecanicamente, sendo que em medicina veterinária, na maioria das vezes, é efetuada com um destartarizador mecânico ultra-sónico.
De seguida é realizada uma destartarização sub-gengival, a qual se revela fundamental para a remoção completa da placa bacteriana. Este procedimento pode ser realizado com uma cureta manual, todavia já existem pontas de destartarizador ultra-sónicas que permitem o seu uso sob a margem gengival sem causar lesão na mesma.
Depois desta fase, pode recorrer-se a uma solução de revelação de placa, que em contacto com o dente mostra uma coloração diferente permitindo assim confirmar se existe ainda alguma placa residual.
Posteriormente, deve proceder-se ao polimento dos dentes com o objetivo de deixar a superfície do dente o mais lisa possível, atrasando assim a deposição da placa.
Depois da realização destes procedimentos e dependendo do exame periodontal e a avaliação radiográfica, poderão ser necessários procedimentos adicionais para o controlo da doença periodontal. Se existir uma bolsa peridontal profunda, é realizada uma gengivectomia para se conseguirem realizar cuidados profiláticos adequados. Caso exista uma hiperplasia gengival, será necessário remover o excesso de tecido através de uma gengivoplastia.
Relativamente à extração dentária, este é infelizmente um procedimento muitas vezes necessário levar a cabo, considerando a gravidade da doença periodontal. Está indicado,por exemplo, em casos de mobilidade dentária moderada a grave, exposição da furca ou perda de osso alveolar avançada.
Higiene dentária
A higiene oral realizada pelos tutores no seu domicílio, revela-se de extrema importância para o sucesso da prevenção da doença periodontal no seu animal.
A placa bacteriana começa a fixar-se à superfície dos dentes cerca de vinte e quatro horas após a limpeza oral. A gengivite pode recidivar rapidamente na ausência de higiene oral. De notar ainda que, se não for realizada uma profilaxia oral em casa eficaz, as bolsas periodontais podem voltar a ficar infectadas, cerca de duas semanas após o tratamento oral.
O principal objectivo da higiene dentária, será a diminuição/eliminação da quantidade de placa bacteriana que se acumula ao nível e abaixo da linha da gengiva.
Neste sentido, existem dois métodos principais para o controlo da placa, o activo (envolve a participação do tutor) e o passivo (baseados na mastigação do animal). Tem sido demonstrado que os cuidados activos são mais eficazes dos dentes rostrais (caninos e incisivos), enquanto os cuidados passivos são mais eficazes nos dentes caudais (pré-molares e molares)
– Métodos activos:
· Escovagem: É o método mais eficaz para a remoção mecânica da placa. Os pelos da escova, não só vão desorganizar mecanicamente o biofilme bacteriano, como também penetram alguns milímetros abaixo da gengiva onde se acumula a placa subgengival.
A escovagem deve ser realizada diariamente e logo nos primeiros meses de vida do animal. Idealmente, deve ser utilizada uma escova suave ou do tipo dedeira, onde se pode colocar uma pasta dentária própria para cães e gatos.
· Uso de pastas ou colutórios: Podem ter na sua constituição zinco, clorhexidina, hexametafosfato de sódio e enzimas (tiocinato,peroxidase) que inibem a aderência da placa bacteriana ao dentes. As pastas podem melhorar o controlo da placa, para além da sua acção, quando são utilizados em conjunto com a escovagem.
– Métodos passivos:
Consistem basicamente nos comportamentos de mastigação do animal, através da oferta de recompensas, suplementos ou de dietas especificamente formuladas. Estes métodos, por si só, não controlam eficazmente o desenvolvimento da doença periodontal, pois só controlam parcialmente a deposição da placa bacteriana.
Conclusão
Até apresentar sintomas que sejam detectados pelos seus tutores, a doença periodontal desenvolve-se muitas vezes de forma silenciosa nos seus animais de companhia.
Por este motivo, é de extrema importância a existência de uma boa comunicação entre o médico veterinário e o tutor, para que desde cedo se inicie um check-up regular visando uma avaliação da saúde oral do animal. Os cuidados para a realização de uma boa higiene oral devem ser comunicados e explicados ao tutor desde as primeiras consultas dos cachorros ou gatinhos. Idealmente, a cada seis meses os animais deveriam ser submetidos a uma avaliação oral, ou mesmo a cada três meses, caso o animal tenha sido diagnosticado com periodontite.
Se desde cedo forem realizadas as medidas preventivas adequadas, é possível conseguir que a doença periodontal em animais de companhia não se desenvolva ou prevenir que a mesma se agrave e desta forma permitir ao animal a conservação de uns dentes saudáveis durante toda a sua vida.
Inês Almeida
Médica Veterinária
