“Uma doença crónica, complexa, multifatorial, recidivante, que aumenta o risco de outras complicações a longo prazo e reduz a esperança média de vida”
É esta a definição da obesidade, considerada uma doença pela Organização Mundial de Saúde há 20 anos atrás. A saúde animal tende a seguir nas pegadas da saúde humana, pelo que se é certo que vivemos uma epidemia global de obesidade na saúde humana, também é certo que já vivemos o mesmo cenário na saúde animal, com a agravante de assistirmos aos efeitos nefastos da obesidade animal num espaço de tempo muito mais condensado.
Mas vamos por partes – o que é a obesidade?
A obesidade é definida como um excesso de gordura corporal a um ponto em que se torna detrimental para a saúde. Para os nossos cães e gatos isso corresponde ao caso em que os depósitos de gordura excedem entre 15 a 20% do peso ideal. Numa imagem mais concreta, são qualquer coisa como 7kg a mais num labrador, mas apenas 1,2kg num Jack Russel ou 800g num gato médio. Tal como na saúde humana, nem sempre o peso é a melhor medida para a avaliação da obesidade porque há raças muito mais musculadas que outras e a obesidade adereça especificamente a quantidade de gordura corporal. É por isso que os veterinários usam frequentemente escalas de condição corporal que não avaliam o peso, mas antes locais específicos de acumulação de tecido adiposo.
De forma simplista, os animais com uma condição corporal superior a 7 são considerados obesos. De facto, não precisa de ser veterinário ou de uma escala para determinar se o seu animal é obeso. Consegue fazê-lo respondendo a duas perguntas simples:
1. Palpe as costelas do seu animal, conseguiu senti-las?
2. Olhe para o seu animal de perfil e de cima para baixo. Consegue identificar uma cintura?
Se respondeu “não” a estas duas perguntas, então muito provavelmente o seu animal é obeso e deveria consultar o seu médico veterinário.

A obesidade é uma doença comum nos cães e gatos?
Se porventura acabou de confirmar que o seu animal é obeso, saiba que não está sozinho. A obesidade animal e humana têm muito em comum e têm evoluído de forma semelhante. Estima-se que a condição afete 25-44% dos nossos cães e gatos e, tal como na saúde humana, é mais prevalente em níveis socioeconómicos baixos e mais propensa quando os tutores também sofrem de obesidade, ambos factores que adicionam camadas adicionais de preconceito e estigma à discussão.
Qual a causa da obesidade?
Compreender as causas da obesidade é fundamental para o seu tratamento. Objectivamente, uma nutrição inadequada é o factor predominante – na esmagadora maioria dos casos os animais são obesos porque consomem mais calorias do que gastam. Esta explicação é indubitavelmente correta, mas também espetacularmente incompleta porque deixa por responder as perguntas “porque é que consomem demais?” e “porque é que gastam de menos?”. Ambas as questões são respondidas com argumentos endócrinos, alimentares, sociais e da atividade física.
Relativamente à questão hormonal, a esterilização é sem dúvida o maior factor de risco. Os animais esterilizados sofrem uma diminuição do seu metabolismo basal, isto é, baixam a quantidade de calorias que precisam apenas para se manter – “gastam menos” – e para além disso sofrem um aumento da fome – “consomem demais”. Não irei alongar-me no tema dos benefícios e malefícios da esterilização, mas irei afirmar não só que que o excesso de peso pode e deve ser um motivo para protelar estas cirurgias, mas também que a esterilização implica uma consciencialização por parte dos tutores de que têm de passar a ter um controlo muito maior sobre a alimentação dos seus animais, tanto na quantidade como no tipo de comida. A esterilização não é o único factor hormonal a propiciar a obesidade, mas todas as outras doenças endócrinas que causam obesidade juntas justificam menos de 5% dos casos.
As causas alimentares são, obviamente, fundamentais para a obesidade e podem ser agrupadas em problemas de modalidade, quantidade e de qualidade. Relativamente à modalidade, os donos travam uma batalha contra a natureza. No caso dos gatos, que são óptimos predadores, os que têm vida livre costumam fazer até 14 pequenas refeições por dia, pelo que o ajuste de os ter em casa a fazer umas convenientes 2 a 4 refeições por dia é bastante contranatura. No caso dos cães, apesar de terem evoluído num sentido mais oportunista e necrófago com a capacidade de passar vários dias sem comer, há uma maior heterogeneidade. Nos de médio e grande porte é frequente uma tendência para ingerir o máximo possível a cada refeição. Os cães de pequeno porte costumam ser mais comedidos, mas a esterilização tende também a empurrá-los para uma fome mais difícil de saciar. Em qualquer um dos casos, a imposição de um regime compatível com a vida dos tutores tende a levar a algumas desregulações, pelo que é fundamental manter uma mesma rotina de alimentação, idealmente com 2 a 3 refeições nos cães e 3 a 5 nos gatos.
Relativamente à quantidade estamos também numa batalha contra a natureza. Durante milhões de anos a fome foi um importante molde para a evolução e, chegados aqui, numa questão de centenas de anos, a abundância passou a ser a regra. Infelizmente para muitos animais, sobretudo os esterilizados, o seu nível de fome é incompatível com a manutenção de uma condição corporal óptima e muitos vão querer comer mais do que deviam. Assim, recai sobre os tutores o ónus de controlar as quantidades de comida fornecidas.
No que se refere à qualidade o argumento é similar ao que se aplica aos humanos. Dietas bem formuladas, com ingredientes de qualidade e, sobretudo, ricas em proteína animal completa e de fácil absorção são fundamentais para manter a saciedade e promover a massa muscular, dois factores protectores contra a obesidade. As boas fontes proteicas têm um preço mais elevado, pelo que uma boa alimentação é, obviamente, mais cara. Deixarei a discussão do mercado de petfood e de rótulos para outra altura, mas o preço de um produto deve reflectir o seu valor e para mim é claro que a diferença entre ração barata e cara vai muito para além do preço. Na categoria da qualidade devemos também falar dos extras, os quais não deveriam exceder os 10% das calorias da alimentação. Sucede que nestes “extras” recaem alimentos geralmente altamente calóricos e pouco indicados, pelo que pequenas quantidades excedem rápida e largamente o orçamento calórico de 10% e contribuem de forma muito considerável para o risco de obesidade.

Contudo, de forma mais opiniosa do que cientifica, a vertente social tem um forte contributo para o problema da obesidade animal. Quais são os gatos bonitos? “Os gordos”. E os cães fofos? “Os rechonchudos”. Se um animal estiver no peso certo, sem se verem as costelas, mas com uma cintura bem delineada, tendemos a ficar na dúvida se não estará magro demais, mas se estiver gordinho então é um monumento de saúde! O nosso “termostato” relativamente à condição corporal foi empurrado para o sobrepeso, muito à semelhança do que aconteceu com as crianças, e olhamos para o sobrepeso como se essa fosse a normalidade. E a verdade é que a comida é um forte laço emocional entre tutores e seus animais. Da mesma forma que gostamos de ver a nossa família e amigos humanos bem saciados, até a exagerarem um pouco, muitos de nós tendemos a fazer isso com os nossos animais. Todos os dias. Abusamos na quantidade, mas sobretudo no tipo de comida porque queremos que partilhem connosco algo que nos dá tanto prazer: o pão, queijo, enchidos, bolachas entre tantos outros. Partilhar comida com os nossos animais é sem dúvida um acto de amor e camaradagem, uma satisfação imediata para todos os envolvidos e sem mal maior no curto prazo. Infelizmente, no longo prazo é fácil que estes mimos conduzam à obesidade tornando a linha entre o amor e a negligência bastante mais ténue do que desejaríamos.
Por fim, nenhuma discussão sobre as causas da obesidade animal estará completa sem adereçar a parte do exercício – cães e gatos precisam de se mexer. Raças como border collies, labradores, jack russels, entre muitas mais, são autênticos atletas com a capacidade de serem fornalhas de queimar calorias e têm frequentemente apetites a condizer. Assim, cabe aos tutores que escolhem estas raças terem a noção de que a sua saúde precisa de tempo e espaço para se exercitarem, algo cada vez mais escasso numa sociedade citadina e com rotinas laborais e familiares intensas. Em animais saudáveis o exercício só traz vantagens e é um forte aliado na prevenção da obesidade. Verdade seja dita que existem muitas raças cujo desporto favorito é dormir e descansar, aproveitando pouco as possibilidades de exercício, mas para as raças atléticas a falta de condições para o exercício tem um impacto significativo no risco para a obesidade. No que se refere aos gatos o problema é ainda mais gritante, não só por ser mais difícil que se exercitem quando queremos mas também porque a falta de exercício e expressão de comportamentos predatórios tem efeitos profundos na sua psique. Existe um facilitismo que os donos colocam na vida dos seus gatos que, apesar de ser bem-intencionado, é contraproducente e conduz não só a problemas de peso mas também de comportamento. Os gatos precisam de desafios, de labirintos de alimentação, de poleiros altos e traves suspensas, de correr, saltar e andarem pendurados. Em ambas as espécies agrava um ciclo vicioso de que ao fazerem pouco exercício têm maior risco de ficar obesos e, ao ficar obesos, menos capacidade de fazer exercício.
Mas a obesidade é assim tão grave nos animais?
Bastante. Arrisco-me a dizer que em termos populacionais nenhuma outra doença rouba mais anos aos nossos animais. Temos hoje em dia evidências concretas de que a obesidade crónica diminua até 2 anos e meio a esperança média de vida. Vamos fazer uma pausa e refletir sobre este número. Um cão que era suposto viver 12 anos, provavelmente vai viver 10. Um gato que deveria viver 16 anos, vê a sua vida encurtada para os 13 e meio. No entanto, teimamos em não encarar a obesidade como uma doença em si própria, defeito esse que se estende também à própria profissão veterinária. Mas os efeitos nefastos não se ficam pela redução da esperança média de vida. A patologia articular, que muitas vezes se traduz em dor crónica e que recheamos de medicamentos, poderia ser muito mitigada com a redução para o peso normal, e poderia até não chegar a existir se fosse feita uma aposta na prevenção. As doenças cardiorrespiratórias, sobretudo nas raças braquicéfalas como bulldogs e pugs, as doenças gastrointestinais como a obstipação, as dermatológicas como o intertigo, as endócrinas como a diabetes nos gatos, as neoplásicas e, um clássico nos gatos, as lipidoses hepáticas. Para mim em particular, aflige-me sobretudo esta perda de qualidade de vida dos nossos animais, mais até do que o encurtamento dessa vida.
E como se combate a obesidade animal?
Em primeiro lugar é preciso reconhecer que um animal obeso é um animal doente. Que da mesma forma que não damos doces a crianças diabéticas não é correcto continuar a sobrealimentar os animais obesos. A prevenção é sem dúvida o melhor remédio, já que é muito mais fácil impedir que a obesidade se instale do que a tratar. Temos de ter uma aposta cada mais forte em educar acerca da alimentação, em alertar para os sinais precoces, em ter conversas francas sobre as consequências desta doença.

Quando tudo falha, muitos Centros Médico-Veterinários, à semelhança do Allvetcare, já proporcionam consultas especializadas para o controlo da doença. Mas trata-se de um processo lento e moroso que muitas vezes coloca animais e donos sobre uma certa tensão emocional e a ideia de que são alterações profundas das rotinas a ser implementadas para o resto da vida do animal pode ser desanimador, principalmente ao início. Contudo, com o devido acompanhamento e para as famílias que vencem a inércia inicial, felizmente são muitas as histórias de sucesso que temos para contar e só quando os seus animais emagrecem é que os donos notam a enorme diferença na qualidade de vida entre o antes e o depois. É um processo particularmente satisfatório de acompanhar porque são pequenas vitórias que pertencem aos donos, aos animais e também aos veterinários.
Todos os dias nos deparamos com animais morbidamente obesos esmagados sobre si próprios, e aos nossos conselhos médicos apelando ao tratamento somos frequentemente respondidos com piadas ou um assentir culpado. Infelizmente, nenhuma dessas respostas parece aliviar a carga daqueles que carregam o peso. Numa cultura profundamente entrelaçada com as nossas experiências alimentares, não encontro melhor forma de terminar do que usando a própria sabedoria popular: “Muito come o tolo, mas mais tolo é quem lho dá.”
Hugo Lopes
Médico Veterinário
